jul,
10
Maggie e Trudie
Não estou, devo dizer logo de uma
vez, envolvido em nenhum relacionamento formal com um cachorro. Não dou de
comer a um cachorro, nem abrigo, não procuro canis para um quando vou
viajar, tampouco tiro piolho, nem mesmo providencio para que alguns de seus órgãos
internos sejam removidos quando eles me aborrecem. Em resumo, não tenho um
cachorro.
Por outro lado, tenho um
relacionamento meio dissimulado, ilícito com um cachorro, ou melhor, duas
cachorras. Por conseguinte, acho que sei um pouco como é ser uma amante.
As cachorras não moram na casa vizinha. Elas nem mesmo moram na mesma – bem, eu ia dizer rua e ia destrinchar aos
poucos, mas vamos direto ao assunto. Elas moram em Santa Fé, Novo México, que é
um baita dum lugar para um cachorro, na verdade para qualquer um, morar. Se
você nunca visitou ou passou um tempo em Santa Fé, Novo México, então
permita-me dizer o seguinte: você é um completo idiota. Eu mesmo era um
completo idiota há até mais ou menos um ano quando uma combinação de circunstâncias,
as quais não vou me preocupar em explicar, me levaram a pegar a casa de
alguém emprestada bem no deserto ao norte de Santa Fé onde fui para escrever um
roteiro. Para lhes dar uma ideia do tipo de lugar que é Santa Fé, eu poderia
falar a vontade sobre o deserto, a altitude, a luz e as jóias de prata e
turquesa, mas a melhor maneira é apenas mencionar um sinal de trânsito na
auto-estrada para quem vem de Albuquerque. Ele afirma, em letras grandes,
VENTOS TEMPESTUOSOS, e em letras menores, PODEM
ACONTECER.
Eu nunca conheci os meus vizinhos.
Eles moravam há mais ou menos um quilômetro de distância no topo da duna
seguinte, mas assim que comecei a sair para minhas caminhadas matinais, uma
corridinha, um passeio suave, conheci as suas cachorras. Elas ficaram
instantaneamente e delirantemente felizes em me ver que imaginei que elas deviam pensar que já havíamos nos encontrado em uma vida anterior (Shirley
Maclaine morava nas redondezas e elas devem ter adquirido todo os tipos de ideias
estranhas só por estarem perto dela).
Seus nomes eram Maggie e Trudie.
Trudie era uma cachorra de aparência excepcionalmente boba, um poodle francês
preto e grande que se movia exatamente como se fora animado por Walt
Disney: um tipo de saltitar que era enfatizado por suas orelhas grandes e
desajeitadas na extremidade frontal e um rabo curto e atarracado com um pouco
de trabalho topiário na extremidade. Seu pêlo consistia de um emaranhado de
cachos negros bem enrolados, que se uniam ao efeito Disney de ser, fazendo
parecer com que ela fosse completamente desprovida de partes pudendas. A
maneira de indicar, toda manhã, que estava delirantemente feliz em me ver
era fazendo algo que eu sempre pensei que fosse chamado “exibicionismo”, mas
que na verdade era chamado “saltitar”. (Acabei de descobrir o meu erro, e vou
ter que repetir grandes partes da minha vida em minha mente para ver em que
tipo de confusão posso ter me envolvido ou causado.) “Saltitar” é pular para
cima com suas quatro patas simultaneamente. Um conselho: não morra até ter
visto um poodle preto e grande saltitando na neve.
A
maneira da Maggie indicar, toda manhã, que estava delirantemente feliz em me
ver era mordendo Trudie no pescoço. Também era a maneira dela indicar que estava
delirantemente animada com a possibilidade de sair para passear, de demonstrar que estava passeando e gostando muito, de mostrar que queria ficar em
casa, era também a maneira dela indicar que queria ficar fora de casa. Morder
Trudie no pescoço repetidamente e de forma brincalhona era, em resumo, sua
maneira de viver.
Maggie
era uma cachorra bonita. Ela não era um poodle, e na verdade o tipo de raça de
cachorro que ela era estava insistentemente na ponta da minha língua. Não sou
muito bom com raças de cachorro, mas Maggie era uma das mais clássicas, óbvias: algo como
uma espécie de beagle grande, vagamente parecida com um retriever, lustrosa,
preta e marrom. Como eles são chamados? Labradores? Spaniels? Elkhounds? Samoiedas? Perguntei ao meu amigo Michael, um
produtor de filmes, uma vez que senti que o conhecia bem o suficiente para
admitir que não conseguia resolver o problema do tipo de raça de cachorro que a
Maggie era, apesar do fato de ser tão óbvio.
– A
Maggie – ele me disse com seu sotaque texano arrastado, sério e vagaroso, – é uma
vira-lata.
Então,
toda manhã partíamos os três: eu, o escritor inglês grandão, Trudie, a poodle e
Maggie, a vira-lata. Eu corria, troteava e andava pelo caminho amplo e sujo
que atravessava as dunas vermelhas e secas, Trudie saltitando brincalhona, por
aqui e por ali, orelhas abanando, e Maggie rolando alegremente, mordendo o seu
pescoço. Trudie
era de extrema boa índole e há muito sofria por conta disso, mas ocasionalmente
ela, de repente, ficava de saco cheio. Nesse momento ela executava uma repentina
pirueta no ar, pousava exatamente em pé encarando Maggie e lhe dava um olhar
extremamente penetrante, com o qual Maggie subitamente sentava-se e começava
a morder gentilmente sua própria pata traseira direita como se estivesse de
saco cheio da Trudie de qualquer maneira mesmo.
Então
elas começavam tudo novamente e saíam correndo, rolando e dando cambalhotas,
caçando e mordendo, por todas as dunas, pelas gramas baixas e vegetação
rasteira, e então ocasionalmente, de modo repentino e inexplicável, paravam
como se tivessem ambas, simultaneamente, ficado sem movimentos. Elas então
fitavam o vazio de forma embaraçosa por um tempo antes de começarem tudo
novamente.
E
qual era o meu papel nisso tudo? Bem, nenhum na verdade. Elas me ignoravam completamente por todo
os vinte ou trinta minutos seguintes. O que era perfeitamente normal, claro, eu não me
importava. Mas
isso me deixou intrigado, porque toda manhã bem cedo elas vinham latindo e
arranhando as portas e janelas da minha casa até que eu me levantasse e as levasse
para passear. Se algo perturbasse esse ritual diário, caso eu
tivesse de dirigir até a cidade, ou tivesse uma reunião, ou viajasse para a
Inglaterra, ou algo assim, elas ficavam completamente devastadas e simplesmente
não sabiam o que fazer. Apesar do fato de sempre me ignorarem totalmente quando íamos para nossos passeios juntos, elas simplesmente não conseguiam ir passear sem mim. Isso se revelou uma tendência filosófica profunda
nessas cachorras que não eram minhas, pois elas tinham concluído que eu tinha
que estar lá para que elas pudessem me ignorar devidamente. Não se pode
ignorar alguém que não está lá, porque não é isso que “ignorar” significa.
Maiores
profundidades de seus pensamentos foram revelados quando a namorada de Michael,
Victoria, me disse que uma vez, quando fora me visitar, ela tentara jogar uma
bola para que Maggie e Trudie fossem pegar. As cachorras se sentaram e assistiram
paralisadas conforme a bola subia no céu, caía e finalmente quicava pelo chão
até parar. Ela
disse que a mensagem que ela havia captado delas era: “Nós não fazemos isso. Nós
passeamos com escritores”.
O que
era verdade. Elas passeavam comigo o dia todo, todos os dias. Mas,
exatamente como os escritores, cachorros que passeiam com escritores não gostam
nada de escrever. Então elas ficavam rodeando os meus pés o dia inteiro
e empurrando meu cotovelo para fora do lugar enquanto eu estava digitando para
que elas pudessem descansar os seus queixos no meu colo, e olhavam fixamente e
pesarosamente para mim na esperança de que eu entendesse a razão e saísse para
passear e, dessa forma, elas poderiam me ignorar adequadamente.
E
então, à noite, elas se mandavam para suas casas verdadeiras para serem
alimentadas, beberem água e irem para cama dormir. O que para mim parecia um acordo
agradável, pois eu tinha todo o prazer da companhia delas, que era
considerável, sem ter qualquer responsabilidade por elas. E continou
sendo um acordo agradável até o dia em que Maggie apareceu toda contente cedo
pela manhã pronta e ansiosa para me ignorar sozinha. Sem a Trudie. Trudie não estava com ela. Fiquei
desnorteado. Não sabia o que tinha acontecido com a Trudie e não
tinha como descobrir, afinal ela não era minha. Teria ela sido atropelada por um caminhão? Estaria ela
deitada em algum lugar, sangrando na beira da estrada? Maggie parecia inquieta e preocupada. Ela deveria
saber onde a Trudie estava, pensei, e o que tinha acontecido com ela. Era melhor segui-la, como à Lassie. Coloquei os meus sapatos e me apressei. Andamos por quilômetros,
percorendo todo o deserto procurando por Trudie, seguindo os caminhos mais
sinuosos. De
repente percebi que Maggie não estava procurando por Trudie coisa nenhuma, ela
estava apenas me ignorando, um estratégia que eu estava complicando ao tentar segui-la
o tempo todo ao invés de apenas seguir a minha rota normal de caminhada
matutina. Então,
por fim, retornei pra casa e Maggie sentou-se aos meus pés e se entediou. Não havia
nada que eu pudesse fazer, ninguém para quem eu pudesse ligar, porque a Trudie
não pertencia a mim. Tudo o que eu podia fazer, como uma amante, era me
sentar e me preocupar em silêncio. Fiquei sem apetite. Depois que a Maggie foi embora para casa aquela noite, dormi muito mal.
E
pela manhã elas estavam de volta. As duas. Apenas algo terrível tinha acontecido. Trudie tinha
sido tosada. A maior parte de seu pêlo fora aparado para
apenas uns dois milímetros de altura, com alguns tufos topiários na sua cabeça,
orelhas e rabo. Fiquei indignado. Ela estava ridícula. Saímos
para passear e eu fiquei envergonhado, de verdade. Ela não estaria com essa aparência se fosse minha cachorra.
Alguns
dias depois tive que voltar para a Inglaterra. Tentei explicar isso às cachorras,
prepará-las, mas elas estavam em estado de negação. De manhã eu saí, elas me viram colocar as
malas na traseira da caminhonete e mantiveram distância, estavam tremendamente
interessadas em um outro cachorro ao invés disso. Realmente me ignorando. Voei para
casa me sentindo estranho.
Seis
semanas depois, voltei para trabalhar em um segundo rascunho. Não era
apenas chamar e as cachorras apareceriam. Eu tinha que dar voltas no quintal dos
fundos, de maneira totalmente óbvia e fazendo todos os tipos de barulhos agudos
como aqueles que apenas os cachorros estão habituados a perceber. De repente,
elas captaram a mensagem e correram através do deserto coberto de neve para me
ver (era meados de Janeiro então). Assim que chegaram, se atiravam repetidas vezes nas paredes de alegria, e então não havia muito mais o que pudéssemos fazer a
não ser sair para uma ignorada saudável e cintilante na neve. Trudie saltitava,
Maggie a mordia no pescoço, e eu andava. E três semanas mais tarde fui embora
novamente. Voltarei de novo para vê-las em algum momento deste ano, mas percebo que sou um Outro
Ser Humano. Cedo ou tarde
terei que me comprometer com um cachorro que seja meu.
Animal Passions (ed. Alan Coren; Robson
Books; Setembro
de 1994).
22 de novembro de 2016 às 11:23
Que linda crônica! Toca fundo. Algumas palavras suscitaram reflexões, são interessantes, como a de só fazer sentido ignorar algo se este está presente. Interessante.
E,a cada leitura, olhamos mais para o universo humano, para nós. Adorei. E a tradução está ótima, as palavras em português parecem retratar como uma luva o que realmente são no original:fluem e acariciam.
Paloma